Vista Alegre

Exposições Temporárias




DESTAQUES DA COLEÇÃO


VASO ROMANO

Esta peça, designada nos arquivos da Fábrica da Vista Alegre como “Vaso Romano”, foi inspirada no “Vaso Borghese”, que se encontra atualmente exposto no Museu do Louvre, em França. Descoberto em meados do século XVI nos Jardins de Salústio em Roma, este vaso foi adquirido por Napoleão Bonaparte no século XIX ao seu cunhado Camillo Borghese. O vaso em mármore, de dimensões monumentais, terá sido produzido no ano I a.C. por artesãos atenienses. As oficinas de Atenas exportavam depois para Itália, dando assim resposta à crescente procura, por parte da sociedade romana, de peças ao gosto helenístico para decoração dos seus jardins e villas [i].

Nos séculos XVIII e XIX as escavações arqueológicas em locais como Pompeia e Herculaneum, em Itália, e a multiplicação das viagens culturais pelo Mediterrâneo levaram ao ressurgimento do gosto pela Antiguidade Clássica. Por toda a Europa multiplicaram-se os desenhos, gravuras e réplicas de objetos deste período artístico, que se tornaram fonte de inspiração para outros domínios das artes decorativas, nomeadamente a cerâmica.

Em finais do século XVIII, o empresário Josiah Wedgwood financiou a ida do escultor-modelador John Devaere[ii] (1755-1786) a Roma para copiar e desenhar o modelo do “Vaso Borghese”. Ficaram conhecidos os exemplares da Fábrica de Wedgwood, que reproduziram a forma e decoração do original, e que terão certamente influenciado a Vista Alegre.

Na coleção do Museu Vista Alegre encontra-se um desenho do “Vaso Borghese”[iii], provavelmente inspirado pelas várias publicações e enciclopédias adquiridas pela Fábrica. Datado de finais do séc. XIX, com a autoria de Joaquim José de Oliveira (mestre de pintura entre 1869 e 1881), este estudo terá servido de base para a modelação do “Vaso Romano”. A produção ter-se-á iniciado em finais do séc. XIX, mantendo-se no catálogo da empresa até ao século XX. Os registos de fabrico datam de 1921[iv] e, além do modelo, com um custo em branco de 64$00, surgem também referenciados o “Vaso Romano” decorado com fundo azul (P. 348), imitando a “blue jasperware” de Wedgwood, e um preço de custo nos 150$00. Num outro verbete surge referência a um fundo de cor preto mate, bem como a uma possibilidade de produção em biscuit e vidrado[v].

O vaso tem um formato de sino invertido e assenta sobre um pedestal com pé. A forma é inspirada nos grandes recipientes de bebida em metal usados em banquetes no século IV a.C e no reportório decorativo na arte do período Helenístico do seculo II a.C.[vi]. No bojo, o vaso possui duas pegas laterais que assentam sobre cabeças de sátiros. Como motivo central surge representado, em relevo, um cortejo báquico com sátiros e ménades que dançam acompanhando Dioniso e Ariadne. Na base do vaso são representadas folhas de acanto e junto ao bordo cachos de uvas e heras.

O cortejo representa o Deus Dioniso, seminu e empunhando um tirso (bastão enfeitado com heras e rematado por uma pinha), ao lado de Ariadne, representada com uma lira e um leopardo aos pés. Sileno, ébrio, tenta agarrar uma taça de vinho e é segurado por um sátiro. As ménades dançam, com os seus panejamentos e instrumentos musicais acompanhadas no cortejo pelos sátiros, com tíbias e bastões.

O “Vaso Romano” da Vista Alegre parece influenciado pela réplica do “Vaso Borghese” de Charles Sauvage[vii] divulgada na “Enciclopédia da Arte Industrial e Decorativa”[viii]. As alterações ao original são ao nível da forma e estão de acordo com esta representação, nomeadamente a base quadrada, a substituição das caneluras na base do vaso pelas folhas de acanto e heras, e também a adição das asas laterais [ix].


[i] Astier, Marie-Bénédicte. “Kylix, known as the ‘Borghese Vase’". Department of Greek, Etruscan, and Roman Antiquities: Hellenistic Art (3rd-1st centuries). Consulta on-line em Dezembro de 2020 https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/kylix-known-borghese-vase

[ii] John Devaere (1755-1786) nasceu em França e estabeleceu-se em Inglaterra c. 1786. Foi aluno da Royal Academy School e assistente do escultor John Flaxman. Partiu para Roma no ano de 1787 e no seu regresso a Inglaterra em 1790 trabalhou para Josiah Wedgwood até 1795. Consulta on-line Janeiro 2021

[iii] MVA DES 1135. Museu Vista Alegre.

[iv] Verbetes nº 3048 e 551. Museu Vista Alegre.

[v] Na coleção do Museu Vista Alegre existem exemplares do vaso sem decoração, em biscuit e porcelana vidrada, e também com a cor de fundo a verde. São também conhecidos na coleção da Fundação Medeiros e Almeida exemplares com fundo a azul. Carvalho, Cristina. “Quatro Vasos Romanos”. Consulta on-line em Dezembro 2020.

[vi] Astier, Marie-Bénédicte. “Kylix, known as the ‘Borghese Vase’". Department of Greek, Etruscan, and Roman Antiquities: Hellenistic Art (3rd-1st centuries). Consulta on-line em Dezembro de 2020 https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/kylix-known-borghese-vase.

[vii] Charles Gabriel Sauvage (Lemire) foi um escultor e modelador. Nasceu em 1741 em Lunéville e faleceu em 1827 em Paris. Consulta on-line Janeiro 2021

http://collections.vam.ac.uk/item/O99106/a-shepherd-figure-lemire-charles-gabriel

[viii] O Museu Vista Alegre possui alguns números da publicação “Art pour tous – Enciclopedia Indsutriale”. Numa dessas publicações, consultada on-line, consta uma estampa de uma réplica do “Vaso Borghese”. “Art Pour Tous – Encycloplédie de l’Art Industriele et Decoratif”.Nº 288. Juin 1872. Direção de M. C. Sauvegeot. Consultado em 2020. www.gallica.bnf.fr/Bibliothèque NationaledeFrance

[ix] Nas alterações efetuadas por Lemire e seguidas pela Vista Alegre é evidente a influência e inspiração no Vaso Médici.